terça-feira, 8 de março de 2011

Sobre a morte - Parte 1

Tá legal, somos brasileiros. Mas nem por isso temos todos a mesma obrigação de encarar o carnaval com os mesmos olhos comovidos. Nós, jornalistas, por exemplo, trabalharemos incessantemente pra você, que finalmente conseguiu aquela folga, leia as notícias frescas da política e do futebol. Além disso, cobrirei com perfeição os desfiles das escolas de samba, ainda que ache todos eles insuportáveis. Fiz jornalismo pra escrever crônicas ou críticas literárias mas acabei falida e nem formada estou. Talvez por isso eu esteja falida. O mundo é assim: ou você nasce especialmente bom em alguma coisa e ganha um monte de dinheiro com isso, ou você constrói um currículo maravilhoso. Não caibo em nenhum dos dois casos. Topei o trampo pra cobrir os benditos dos desfiles. Chamem-me de velha. Sou razoavelmente jovem e não desfilo pra escola de samba nenhuma e meus bons amigos todos estarão na praia, ainda que chova. Restei na capital, ainda que apaixonada por essa cidade, não me lembro de ter morrido. E pô, curiosamente também queria sentir isso de pirar quando chega o carnaval. Eu só vou fazer a mesma coisa que faço sempre. Vou me levantar, vou atrás de notícia, vou chegar em casa, vou misturar o pó pronto de cappuccino da Nestlé com leite fervente e depois que terminadas minhas horas sobre o computador, vou até o bar.
Chamo-me Ana. Um nomezinho de merda. Não se cria apelidos pra uma Ana. No máximo surgem aquelas coisas carinhosas tipo “Aninha”. Escrevo porque acredito no amor. A única verdade em mim é essa. Não que a escrita seja puramente fruto do meu egoísmo...
Cheia de olheiras pesadas, parece-me que a vida está sempre arranjando um novo jeito de me castigar pela minha mania de querer uma revolução sentimental. Quietinha, fecho meus olhos tentando fazer com que meus olhos pesem um pouco menos, mas percebo, em pouco tempo, que é só a minha alma pendendo para o lado, se desconectando do meu corpo. Mas hein, aonde a malandra acha que vai? Do lado de fora a chuva vai se aquietando, mas agora o estrago já está feito por toda a cidade. Prevejo trânsito. E eu quietinha, de olhos fechados, no banco do passageiro com a alma pendendo mais pro lado direito do que pro esquerdo. Sinto-me torta. Mamãe comenta que costumamos usar muito um lado só do corpo e do cérebro. Mal domino as atividades motoras sendo só destra, imaginem se me dessem a capacidade de trabalhar com tranqüilidade usando as duas mãos. Penso em arrancar os olhos fora para que não pesem mais. Não é lágrima, é só o resultado do desassossego da noite. São Paulo, terra da garoa, fica intragável quando não chove. Mas hoje em dia vive-se o apocalipse. São Paulo não me traga todinha, imponho-me sobre ela.
Rodo a chave na maçaneta do meu apartamento quarto e sala. Está tudo mudo. Minha mãe entra pra me ajudar com as compras. Meus olhos pesando, meu corpo todo se enfraquecendo e minha mente exagerada prevendo desmaio ou morte. Eu sempre acho que vou morrer. A qualquer instante como se morrer fosse tão óbvio quanto dar um espirro. Largo as compras em cima do armário, virginiana que sou, temo sofrer de TOC. Lavo todas as frutas, higienizo tudo. Eu te disse que era um golinho só de vinho mas que depois você poderia ir. Não me estenderia mais, nossa novela mexicana já rendia capítulos demais, o público e até mesmo seus atores estavam todos saturados e andavam reprisando episódios até mesmo em dias que não eram sábados. Então eu te disse que era só um golinho e você poderia se levantar da minha poltrona vermelho-salmão preferida e ir embora. Parar de beber do meu vinho e sugar do meu amor. Mas você ficou quando deixou o cd daquele cantor de jazz meio fanho e meio deprê. Jazz me lembra tanto a gente... Me lembra tanto de quando íamos a jantares elegantes fingindo alguma decência e cruzávamos os pés embaixo da mesa e passávamos no supermercado pra comprar bebida e éramos cheios dos clichês, nosso amor era um puta de um clichê. Era uma história amassada, cuspida, rascunhada. Era um roteiro mal escrito. Ou escrito com tanto fervor e urgência que aquelas idéias miúdas que servem pra dar complexidade ao medíocre acabavam se perdendo. Tem uns livros em cima do criado mudo, uns manuscritos em alemão que tenho que traduzir até amanhã, além da matéria do carnaval de São Paulo, mas tem você ficando no cd de jazz. E São Paulo esquentando e eu só pensando que é bom que esses brasileiros leiam muita literatura alemã pra que assim eles paguem o meu ar condicionado móvel.
Você largou de mim naquele vinte e oito de junho. Não estava tão frio como costumava ficar no inverno. Sem precisar usar luvas, ficava mais fácil escrever sobre a puta falta que você me fazia. Seus discos de jazz me trouxeram uma espécie de amor por esse tipo de som. Passei a freqüentar sozinha esses bares com clima meio blasé. Passei a não me satisfazer com nada mais suave do que whisky. Passei a querer queimar meu corpo ateando fogo a todos os meus órgãos cada vez que metia álcool goela abaixo. Só passei a querer sobreviver quando percebi que meu ofício é atiçado por jazz e por álcool. Não fosse isso, talvez hoje eu tivesse cedido a esse grande espirro que é a morte. Úlcera, overdose, arritmia, atropelamento. Eu devia ter ido com essas coisas.