Pouco resta pra quem tem o coração cravado. Não que não haja mais trabalhos a serem trabalhados ou estudos a serem estudados. Há ainda uma vida a ser vivida. Mas pra quem tem o coração cravado, é como se o resto do mundo e das pessoas e dos lugares fosse insuficiente. É necessário somente que alguém venha retirar-lhe a flecha acertada no meio do peito. Clichês que dizem que o tempo cura não justificam o tempo que passei estirada em minha cama querendo que todo o resto se imploda.
As estações se passam. O dinheiro vai se esgotando. É necessário que eu me mova. É necessário sair do casulo e tornar-me borboleta novamente. Talvez dessa vez eu tente arranjar emprego fixo assim que terminar a tradução. Coisa séria, escritório, carteira assinada. A náusea aumenta só de pensar em uma hipótese dessas. Mas a distração que algo dessa proporção me traria ainda soa interessante. Recuperação não deve ter a ver com amassar algumas folhas rabiscadas e muito menos a ver com o arremesso a distância entre a escrivaninha e o lixo.
Recuperação deve ter a ver com achar alguém melhor. Iniciei-me logo nessa decisão. Havia ainda poucos homens além de você na minha listinha telefônica. Risquei o nome de mais alguns totalmente boçais. Restou uma meia dúzia. Resolvi arriscar. Aquele tempo chorando e doendo tinha me enfiado naquela espécie de morte gradual e eu precisava sair pra fora da cova. Quis ligar pra alguém com nome de artista porque seria mais fácil fingir prazer ou gosto mas não achei ninguém que me despertasse um ideal artístico. Sem outra possibilidade, liguei pro Luiz. Por nenhuma razão em especial a não ser o fato de que sexo ali era mais garantido. Eu poderia ser atriz com uma capacidade tão grande de dissimular meiguice. Poderia chamá-lo pra um sorvete, um café, um whisky. Ele toparia qualquer um dos três. Fomos pra um bar. Não sei se é razoável chamar aquele boteco de bar. Fica evidente que a escolha fora minha. Sorvete soaria juvenil demais, café soaria inteligente demais e eu só queria sexo depois de ter colocado algum álcool correndo em minhas veias.
É engraçado o primeiro encontro depois que se termina um relacionamento. É engraçado o primeiro encontro de coração cravado. Todas as frases que eu conseguia formar eram feitas pra impressionar você. Eu tinha a sensação de que havia entrado em um barco que só fazia se afastar do cais, mas eu era a louca que continuava a gritar, continuava a mandar sinais de fumaça ainda que soubesse que a distância só aumentava e que sequer ainda era possível ver algum sinal. De som ou fumaça. Luiz parecia-me o mais previsível dos homens. Falou alguma coisa sobre uma meia dúzia de filmes que viu. Ele gostava de umas coisinhas boas, mas tinha um humor péssimo e o meu exagero ficava escancarado perto da tranqüilidade dele. Que pedisse a conta de uma vez e que fôssemos para um quarto tão rápido quanto possível.
Luiz, mas já acabou o whisky, seu merda? Não vem com esse papinho de que misturar bebida com remédio tarja preta não faz bem pra saúde. Você não me quer bem louca mas deixou que eu bebesse até o ponto em que você sabe que eu ficaria fácil pra que você me comesse. Então me dá whisky, seu merda. No boteco a bebida é responsabilidade minha, mas aqui, sob teu teto, você me quer sóbria? Vá pra merda.
A primeira medida depois de vinte e oito de junho foi desligar os celulares e arrancar o telefone do fio. Quis que ninguém soubesse de mim. Como se o mundo todo estivesse prestes a rir da minha dor. Como se a minha dor estivesse pulsando tão viva dentro de um corpo morto. Meus jargões trazendo esse ar obviamente sofrido a todas as minhas palavras. E que se você ligasse e encontrasse só a caixa postal me acharia ocupada o bastante para te atender. Então, me desconectei. Da palavra, de meus números de telefone. Fechada, onde só eu e a senhora minha mãe pudessem me encontrar.
Fingir-me de morta pra ver o tempo passando mais rápido. Suicídio que era enfrentar o relógio, principalmente o analógico. Horário foi por muito tempo uma coisa vaga. Podiam ser três ou seis ou nove. Da manhã ou da noite. Só me cabia enfrentar tudo com literatura, música, sexo casual. Fingindo-me de morta. Pra você sentir o buraco que deveria ficar sua vida sem mim. Pra que você me procurasse com uma fúria desesperada e me xingasse e me viesse, ainda que segurando pedras em cada uma de suas mãos. Você veio, algumas vezes. Pedindo-me pra que não esquecesse.