Encontrar um emprego andava difícil feito procurar agulha em palheiro mas Marcos e eu entramos nessa empreitada de maneira assídua. Fomos artistas, metidos a cineastas por longos anos de nossas vidas. Vivíamos duros, não por falta de talento. Sonhávamos com a direção de arte mas só nos mandavam caçar objetos, aparentemente inexistentes, para o cenário. Foi quando procurar um emprego fora do meio artístico se tornou algo mais pragmático. Talvez não fôssemos, em essência, artistas. Sem maiores dons, cedemos.
Marcos, embora já tivesse entrado na casa dos trinta, ainda tinha a aparência bem adolescente. Usava algumas coisas despojadas, uma barba por fazer. Eu era um quarentão com aparência de quarenta e cinco. Não éramos casados, compartilhávamos algumas bebedeiras e por essa única razão, morávamos juntos. Não tínhamos por hábito cuidar da aparência física mas a procura por trabalho em algum escritório maçante teve que nos fazer mudar alguma coisas, começando por aí. Dois homens fumantes de meia idade, o que mais se esperava? Lavávamos a louça com pouca freqüência e havia algum tempo que tínhamos aderido ao uso de copos, talheres e pratos de plástico. O apartamento andava aos trapos. Andava não, falando assim dá ar de um lugar que algum dia fora organizado. O apartamento 272 nunca foi exemplo.
O ápice de organização que chegamos foi durante o rascunho de uma tabela com o revezamento dos dias em que cada um de nós poderia levar alguma mulher até lá. Estabelecemos regras, estipulamos horários, armamos esquemas de revezamento. Nossa idade nos proporcionava certa maturidade sexual e nossos instintos pré-adolescentes já haviam sido levados há tempos mas, como não tínhamos medo da solidão, ainda nos cabia algumas travessuras.